A Sociedade Catarinense de Pediatria (SCP) realizou, no dia 3 de fevereiro, uma live em parceria com a Sociedade Catarinense de Ginecologia e Obstetrícia (SOGISC) para marcar a Semana Nacional de Prevenção à Gravidez na Adolescência, instituída pela Lei nº 13.798/2019. O encontro reuniu especialistas que trouxeram reflexões urgentes e profundas sobre um tema que afeta milhares de meninas todos os anos no Brasil.
Participaram da conversa a Dra. Tatiana Lemos, diretora da SCP, pediatra com atuação em ações sociais e comunitárias; a Dra. Catarina Costa Marques, também pediatra e psicóloga, especialista em adolescência e terapia familiar; e a Dra. Cristiane Pereira dos Santos, da SOGISC, ginecologista e obstetra, membro da Câmara Técnica do CRM-SC.
Logo na abertura, foi lançado um alerta: a gravidez na adolescência é um fenômeno complexo, que não pode ser tratado apenas como uma questão médica. Ela envolve saúde mental, contexto familiar, vulnerabilidades sociais, acesso à informação e aos serviços, e exige um olhar transdisciplinar. Um dos perigos é acreditar que “isso não acontece por aqui”. Os números provam o contrário.
Só em 2023, mais de 289 mil partos ocorreram entre adolescentes de 15 a 19 anos, representando 11,39% dos nascimentos no país. E mais de 13 mil partos foram em meninas de 10 a 14 anos. Para além dos dados, há histórias interrompidas, projetos de vida desfeitos, meninas que deixam a escola, perdem o vínculo com seus pares, enfrentam a maternidade sem apoio – e, muitas vezes, em silêncio. A live também trouxe um dado duro: em 2023, apenas 154 abortos legais foram registrados nessa faixa etária, o que reforça o tamanho do abismo entre proteção legal e acesso real a direitos.
As especialistas chamaram atenção para outro ponto essencial: relações sexuais com menores de 14 anos são, legalmente, consideradas estupro de vulnerável – independentemente de consentimento.
Do ponto de vista emocional, muitas adolescentes engravidam em contextos marcados por baixa autoestima, carência afetiva e dinâmicas familiares frágeis. Do ponto de vista obstétrico, os riscos são significativos: parto prematuro, pré-eclâmpsia, complicações graves. E no campo social, os efeitos se estendem por anos: abandono escolar, dificuldade de inserção no trabalho, sobrecarga emocional e econômica.
Mas a live não se limitou aos problemas. Houve um consenso claro: a prevenção começa cedo, muito antes da puberdade. E não significa sexualizar crianças. Significa ensinar, desde os primeiros anos, o respeito ao próprio corpo, a noção de privacidade e o direito a dizer não. Na puberdade, esse diálogo evolui para conversas sobre mudanças corporais, menstruação, relacionamentos. Quando o assunto é tabu em casa, os adolescentes buscam respostas na internet e nem sempre encontram boas fontes. Daí a importância de abrir canais seguros de diálogo.
Nesse cenário, o pediatra ocupa um papel privilegiado. É o profissional que acompanha a criança por anos, constrói vínculo com a família e é capaz de perceber sinais de alerta que muitas vezes aparecem primeiro no comportamento: isolamento, irritabilidade, queda no rendimento escolar. A consulta pediátrica pode, e deve, ser um espaço seguro para escuta – inclusive, quando necessário, com atendimento sigiloso, conforme previsto por lei.
Outro ponto forte do encontro foi a parceria entre pediatria e ginecologia. Iniciar esse vínculo logo após a menarca, com consultas de acolhimento e informação, é uma forma de preparar a adolescente para lidar com sua saúde de forma ativa, antes que surjam urgências. A ginecologia pode ser o espaço para falar de ISTs, métodos contraceptivos, consentimento e relacionamentos saudáveis, sempre com respeito aos valores familiares, mas sem abrir mão da ciência.
No campo da contracepção, foi destacada a importância dos métodos de longa duração, como o DIU e o implante subdérmico, já incorporado pelo SUS. Apesar de ainda cercados por mitos, são opções seguras e eficazes para adolescentes. E o uso de preservativos segue sendo indispensável, especialmente diante do aumento de infecções sexualmente transmissíveis.
Por fim, a live encerrou com um lembrete poderoso: a prevenção não é responsabilidade só das meninas. Os meninos também precisam fazer parte dessas conversas, aprendendo desde cedo sobre sexualidade, respeito, consentimento e responsabilidade reprodutiva.
A gravação da live será publicada no YouTube, no site da SCP e no Spotify. Uma oportunidade para que mais pessoas tenham acesso a esse debate necessário.
Prevenção exige vínculo, presença e informação segura. Silêncio não protege. Diálogo protege.
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