Por: Dra. Armanda Rufino
“Ser mulher e ser médica é um grande risco para a saúde.”
Isso mesmo!
Duas identidades diretamente associadas ao cuidado — o feminino e a medicina — podem, paradoxalmente, aumentar imensamente o risco de adoecer. Isso ocorre quando o cuidado se transforma em obrigações e compromissos infinitos, e o autocuidado passa a ser vivido como culpa. À primeira vista, tudo pode parecer apenas uma habilidade admirável de ser multitarefa. Mas, aos poucos, essa multiplicidade de funções se transforma numa grande distração em relação à tarefa mais essencial de todas: olhar para nós mesmas.
Este é um paradoxo duro e desconfortável.
Mulheres médicas, treinadas para salvar vidas, estão entre as que mais adoecem por dentro.
E isso não acontece porque são fracas.
Acontece porque, muitas vezes, são fortes demais por tempo demais.
Desenvolvi um conceito que se chama resiliência patológica: aguentamos tanto por tanto tempo que perdemos o parâmetro e consideramos sofrer e carregar uma carga tão pesada como algo “natural” para nós. A linha entre força e exaustão deixa de ser percebida. E quando não reconhecemos o limite, ele vem no formato da doença.
Os dados que escancaram o paradoxo
A ciência confirma o que muitas de nós já sentimos na pele. E os números não mentem.
Uma grande meta-análise internacional, envolvendo 39 estudos de 20 países, entre 1960 e 2024, demonstrou que médicas apresentam risco de morte por suicídio maior do que a população geral, com uma razão de taxa em torno de 1,76 — aproximadamente 76% maior para mulheres¹.
Além disso, burnout e sofrimento mental são amplamente prevalentes na prática médica — e atingem de forma desproporcional as mulheres. Revisões sistemáticas recentes apontam altas taxas de burnout, depressão e ansiedade entre médicos, com índices consistentemente mais elevados no sexo feminino²,³.
No campo da pediatria, os dados são igualmente preocupantes. Em uma grande amostra norte-americana (Organizational Biopsy / American Medical Association), 55% das pediatras relataram burnout em 2022, e 48% referiram não se sentir valorizadas profissionalmente⁴.
Embora as estimativas variem conforme método e contexto, o padrão é inequívoco: médicas sofrem mais e morrem mais dentro do contexto profissional em que atuam.
Diante disso, surge uma pergunta que nos machuca — mas que precisa ser feita:
Como podemos ser veículos de saúde se nossos indicadores são piores do que os da população geral, onde estão incluídos os nossos próprios pacientes?
É certo que não precisamos ser perfeitas para ajudar os outros, mas como podemos ajudar de verdade estando tão pior do que eles?
“Faça o que eu falo, mas não faça o que eu faço.”
Quando essa frase passa a nos representar, perdemos coerência, consistência e autoridade moral. E o preço disso é muito alto — para nós, para nossas famílias, para nossos pacientes e para o sistema como um todo.
Por que adoecemos tanto?
A medicina, por si só, já é exigente. A prática médica impõe elevada carga emocional e cognitiva. Demanda dedicação extrema e nos obriga a lidar diariamente com fatores que fogem ao nosso controle: sistemas precários, condições de trabalho inadequadas, limitações institucionais e profundas desigualdades socioeconômicas dos pacientes.
Para muitas mulheres, soma-se a isso mais do que a dupla jornada — trata-se, na prática, de uma tripla jornada: carreira, casamento e filhos. Junta-se também a carga mental invisível, o perfeccionismo como padrão de excelência, a autocobrança como identidade e o sacrifício como valor socialmente exaltado. Não raramente, os ambientes de trabalho são atravessados por vieses, discriminação e assédio⁵.
O resultado?
Passamos a viver em modo de sobrevivência: funcionamos por fora, enquanto sangramos por dentro.
Esse funcionamento em modo de sobrevivência é, inicialmente, adaptativo. Porém, quando prolongado, ele se transforma em risco clínico. A exaustão crônica altera sono, humor, regulação emocional, desempenho cognitivo e tomada de decisão — exatamente as funções que sustentam nossa prática profissional.
O silêncio que adoece ainda mais
Mesmo quando a médica reconhece que precisa de ajuda para sua saúde psíquica, muitas evitam buscá-la.
O medo do julgamento, das consequências profissionais, da perda de credibilidade e do descredenciamento pesa de forma significativa. Estudos mostram que barreiras institucionais e culturais na medicina contribuem para a relutância de médicos em buscar cuidado em saúde mental⁶.
O estigma, no entanto, não vem apenas da sociedade.
Ele cresce dentro da própria cultura médica, que romantiza o “sofrer em silêncio” como sinal de força e resiliência — e trata o pedido de ajuda como fraqueza⁷.
E assim perpetuamos um ciclo perigoso: sofrimento, silêncio, agravamento.
Do que estamos falando, afinal?
Aqui não falo das tristezas, lutos e ansiedades naturais da vida.
Aquelas que fazem parte do existir, que se encaixam em contextos compreensíveis e que melhoram com recursos não medicamentosos: conversas, descanso, viagens, tempo.
Falo de uma tristeza e de uma ansiedade que se tornaram doença, que são consequência de um órgão cérebro adoecido.
São transtornos depressivos e ansiosos que exigem regulação neuroquímica, tratamento médico, acompanhamento especializado e, muitas vezes, medicação por um tempo considerável.
São quadros que pioram progressivamente quando não tratados, comprometem o funcionamento do dia a dia e alimentam as estatísticas de suicídio como consequência extrema do não cuidado¹,².
Adoecer mentalmente não é fragilidade individual.
É um corpo e uma mente tentando sobreviver em estado de colapso silencioso — invisível aos exames, mas profundamente destrutivo a olhos nus.
Uma verdade que precisa ser dita
Você não é menos médica por adoecer.
Você não é menos competente por precisar de cuidado.
Você é humana antes de ser médica.
E quando se cuida como tal, protege também a sua prática, sua família e sua profissão.
Tornar-se a sua paciente mais bem cuidada é o que sustenta tudo o que vem depois.
Então, vamos lá: como você está se cuidando hoje?
Um modelo integrativo de cuidado
Propõe-se aqui um modelo baseado em três pilares complementares, que podem servir como guia prático de reflexão e ação.
1. Segurança e tratamento
Se você está cansada demais, irritada demais, triste demais, anestesiada demais ou chorando quando ninguém está olhando, isso pode ser sinal de adoecimento mental.
• Prejuízo do sono, alterações de apetite e libido, impaciência, pessimismo, queda de produtividade no trabalho, percepção de que você está muito diferente do seu funcionamento habitual, uso de álcool ou automedicação para alívio emocional são sinais de alerta.
• Diante disso, é fundamental procurar ajuda especializada para diagnóstico com precisão e acompanhamento quando necessário (psiquiatra + psicólogo / psicoterapia).
Princípio: Tratamento não é só para crise. É também para prevenção.
2. Autocuidado com parâmetros objetivos
• Sono em quantidade e qualidade adequadas
• Limites claros e agenda realista
• Movimento ou exercício corporal no mínimo viável
• Nutrição e hidratação cuidadas
• Rede de amigos, grupos e espaços de apoio
• Hobbies e momentos de lazer
Princípio: Somente quando garanto para mim o que recomendo aos meus pacientes, consigo cuidar verdadeiramente deles. Agora sim: “Faça o que eu faço!”
3. Autoconhecimento
• Valores: o que me move — e o que me custa caro demais e me paralisa?
• Identidade: eu só tenho valor quando sou útil e quando produzo?
• Honestidade: que limites eu preciso colocar para ser fiel a mim mesma?
• Sacrifício: eu ajudo o outro mesmo me prejudicando?
• Culpa: por que descansar parece gerar dívida?
• Espiritualidade e propósito: o cuidado também precisa de fonte
Princípio: Viver minha verdade e me tratar como prioridade não é egoísmo; é o melhor que posso fazer por mim e por quem se importa comigo.
Um novo pacto consigo mesma
A partir desses três pilares, fica o convite: seja a médica que agora se coloca em primeiro lugar — e que se cuida com o mesmo zelo, dedicação e responsabilidade com que cuida de suas crianças e famílias.
Qualidade de vida não é luxo. É fator de proteção.
Quando você escolhe se tratar, protege sua vida, sua família e seus pacientes.
E só assim poderá oferecer caminhos reais — e não atalhos ilusórios — a quem está sob seus cuidados.
Porque somente desse lugar você estará fora das estatísticas médicas tão devastadoras
e dentro de uma experiência humana de verdadeira evolução consciente e prosperidade plena.
Chega de querer mudar o mundo por transpiração! Encontrando o nosso eixo de saúde e autenticidade, curamos as pessoas por inspiração.
Dra Armanda Rufino
Psiquiatra
CRM/SC 11124 | RQE 5359
Referências
- Duarte D, et al. Suicide risk among physicians compared with the general population. BMJ. 2024;386:e078964.
- Rotenstein LS, et al. Prevalence of depression, depressive symptoms, and suicidal ideation among physicians. JAMA. 2016;316(21):2214–2236.
- West CP, et al. Physician burnout: contributors, consequences and solutions. J Intern Med. 2018;283(6):516–529.
- American Medical Association. Organizational Biopsy®: Physician burnout and fulfillment. AMA, 2022.
- Templeton K, et al. Gender-based differences in burnout and workplace experience. Lancet. 2019;393(10171):571–580.
- Gold KJ, et al. Mental health stigma among physicians. J Gen Intern Med. 2016;31(12):1344–1349.
- Dyrbye LN, et al. Medical culture and the silent suffering of physicians. Acad Med. 2017;92(4):422–431.
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